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A beleza e nossa vida espiritual


O que faz com que, ao olhar uma igreja como a catedral de Maringá, pensemos num forno de pizza ou num reator soviético da década de 1960 e, ao ver a Sainte-Chapelle, lembremo-nos imediatamente de Deus? O que faz com que a primeira pareça datada, ultrapassada, um vestígio do triste século XX, enquanto que a segunda seja eterna e nos remeta à eternidade? A resposta, eu diria, é muito simples: uma é bela, enquanto a outra não.

O poeta francês Charles Baudelaire, num de seus poemas intitulado La Beauté (A Beleza), personifica esta como uma impassível deusa de pedra, diante da qual os homens vêm oferecer seus sacrifícios, que não são senão o esforço que fazem para reproduzi-la em suas obras. Valendo-se da figura de uma divindade, o vate não quer senão dizer-nos uma coisa: a beleza é eterna, duradoura, não se curva aos homens, muito embora eles se curvem diante dela; a beleza não muda, não passa, ainda que uns e outros tentem chamá-la mera convenção social ou imposição das classes dominantes ou qualquer besteira que o valha. Tamanha ousadia não passa desapercebida e nem impune.

Sabemos que a beleza não é uma deusa, porque não há senão um Deus; o que sucede, no entanto, é o contrário: nosso Deus é a Beleza mesma. Deus é o Bem, a Beleza e a Verdade, de forma que estas são aspectos variados do Deus uno. Tudo que é bom, belo e verdadeiro converge para uma unidade absoluta, que é a da Divindade. Sendo estes três aspectos como que irmãos, não podem caminhar solitários, mas um sempre chama o outro para lhe fazer companhia. Esta noção, bastante clara e cara aos gregos e basilar para a estética ocidental, em nossos tempos foi quase esquecida

Tudo aquilo que é belo implica uma ordem em que as proporções de cada parte têm por finalidade compor um todo, e nessa proporcionalidade e unidade nossa alma encontra prazer. Trata-se de um deleite que, embora tenha fundamento nos sentidos, é eminentemente espiritual, porque reside na constatação destas características no objeto observado, coisa que somente o espírito é capaz de fazer, ainda que o faça de maneira inconsciente. De fato, fazê-lo de forma inconsciente demonstra o quanto o belo está profundamente enraizado em nossa natureza humana, que se compraz na ordem, por ter sido ordenadamente criada por Deus e colocada num mundo permeado de ordem e racionalidade divinas. Sendo tão visceral em nós, não pode ser desprezada, sob pena de se negligenciar um aspecto fundamental do nosso próprio ser.

O mundo moderno, refém de ideologias que negam a verdade, acabou por se tornar estéril em matéria de beleza. A mentalidade modernista, ao afirmar que tudo é relativo, que não há verdade alguma, reduziu a arquitetura e as demais artes a meras afirmações de escolas e movimentos artísticos, afastando-as da busca da tríade acima mencionada: bem, beleza e verdade. O fruto disso é, como se disse no início do texto, uma "arte" que só serve aos anseios dos próprios artistas, desejosos de afirmar perante a sociedade os valores desta ou daquela corrente estética da moda. Modas, como sabemos, são passageiras e logo deixam de fazer sentido aos homens; hoje são incensadas e amanhã, postas no ridículo, vistas como símbolos daquilo que era e já não é.

Olhemos para Brasília e para Roma: a primeira serviu apenas para a afirmação de Niemeyer como um arquiteto e homem de seu tempo, é pastiche de cidades planejadas soviéticas, cansa os olhos com suas formas retas, pouco humanas, parece parada em meados do século passado; Roma, ao contrário, é a cidade eterna e sua beleza é desde sempre até hoje cantada. Enquanto Brasília é moderna, Roma é bela.

A beleza, portanto, nos faz lembrar da ordem criada pelo próprio Deus. Tudo aquilo que é belo, de uma maneira ou de outra, deve remeter a Ele, embora com Ele não se confunda. Os pagãos adoravam árvores, astros ou estátuas por verem a beleza que eles tinham; com a vista ofuscada, contudo, não viam a beleza de Quem os fez. Por meio da beleza das criaturas, devemos chegar à beleza do Criador, em percurso idêntico ao percorrido por Santo Agostinho em seus inquéritos sobre o mundo que o rodeava, belíssimo.

Não é possível, assim, dissociar o Belo de nossas vidas espirituais. A beleza deve permear nossos templos, nossa liturgia, nossas imagens, nosso relacionamento com Deus. Nada que se dedique ao Senhor pode ser banal, simplório ou feio; tudo deve buscar assemelhar-se Àquele a Quem faz referência. Se pudermos semear a beleza neste mundo árido em que vivemos, talvez ele possa, tal qual filho rebelde, retornar ao Pai que o criou.


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