HISTÓRIA DA QUARESMA DE SÃO MIGUEL ARCANJO: uma devoção de São Francisco de Assis
Atualizado: 10 de set.
Sobre a sua devoção aos anjos, e o que fazia por amor a São Miguel
[Francisco] Tinha a maior veneração pelos anjos, que estão conosco no combate e caminham ao nosso lado por entre as sombras da morte. Dizia que esses companheiros devem ser reverenciados em toda parte e que devemos invocá-los como nossos protetores. Ensinava a não ofender sua presença, e que não se devia ousar fazer diante deles o que não se faria diante dos homens. Considerando que, no coro, salmodiamos diante dos anjos, queria que todos que pudessem comparecessem ao oratório, e que aí salmodiassem sabiamente. Mas muitas vezes dizia que devemos honrar de maneira toda especial o bem-aventurado Miguel, porque é o encarregado de apresentar as almas. Pois em honra de São Miguel, fazia uma quaresma de jejuns desde a festa da Assunção até o seu dia. E dizia que, “em honra de tão importante príncipe, dever-se-ia oferecer a Deus algum louvor ou algum dom especial”.
Vita Secunda, cap. CXLIX, de Tomás de Celano (†1265),
sobre São Francisco de Assis, com quem conviveu
SUMÁRIO
1. PRÓLOGO

Oferecemos ao leitor o que chamamos de 'Coletânea de Narrações', de fontes históricas sobre como São Francisco de Assis observava a Quaresma de São Miguel Arcanjo, devoção da qual a tradição franciscana conserva nele o mais ilustre testemunho, documentado.
Trata-se de uma devoção privada, não sendo de observância obrigatória como a Quaresma de preparação para a Páscoa, tempo litúrgico com preceitos canônicos.
Assim, a Quaresma de São Miguel coloca-se como um convite a um tempo devocional, em honra de Deus, da Santíssima Virgem Maria e de São Miguel.
Inicia-se com a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora (15 de agosto), e conclui-se na festa dos Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael (29 de setembro). São, portanto, 40 dias, excluídos os domingos. A penitência também se omite no dia inaugural e final.
Sendo quaresma, inspira-se na Quaresma litúrgica quanto a ser tempo de jejum e penitência. Deve-se dizer que a penitência interior, enquanto virtude, consiste em converter-nos a Deus de todo o coração; doer-nos dos pecados cometidos; firmar-nos no propósito de emenda (cf. CIC n. 1430s.; CR II, V, 4). São obras de penitência a oração, o jejum e a esmola. Por “jejum”, aqui, entendem-se as mortificações em geral. E por “esmola” as obras de misericórdia. Para que tais obras de penitência sejam dignas desse nome, devem acompanhar a penitência interior, sem a qual serão estéreis.
Sendo em honra a São Miguel, cuja fidelidade queremos imitar, veneramo-lo como príncipe da corte celeste, protetor e intercessor junto de Deus, pedindo-lhe que apresente ao Senhor nossas súplicas e nos dê sua assistência. O arcanjo é belamente mencionado no Livro do Apocalipse:
Houve no céu uma batalha: Miguel e os seus anjos pelejavam contra o Dragão, e o Dragão com os seus anjos pelejava contra ele; porém estes não prevaleceram, nem o seu lugar se encontrou mais no céu.
Apocalipse 12, 7s.
Em sua quaresma, não é essencial que se faça uma quarentena de orações formuladas e predeterminadas — à semelhança das conhecidas novenas recitadas piedosamente em diversas ocasiões — ou que se acenda uma vela. De qualquer modo, são bem recomendadas as orações que se costumam rezar, como a Ladainha de São Miguel Arcanjo e a oração breve composta pelo Papa Leão XIII (São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate…), entre outras. Também a vela acesa, rica de significados teológicos, é prática popular durante as preces nos quarenta dias.
Seja como for, o fundamental é o espírito procurar conformar-se à vontade de Deus, com coração penitente, e colocá-la em prática, o que se alcança com a graça. “Pedi, e vos será dado” (Mt 7, 7).
Não há ilustração melhor para isso que a própria relação de São Francisco de Assis com a devoção.
Ao ler a Coletânea de Narrações, o leitor cuide de diferenciar o que é de se imitar do que é de apenas se admirar, como diria o respeitado hagiógrafo de “Vida de Santos”, o Padre Alban Butler.
Com ele, recomendamos:
“Embora não possamos imitar todas as ações dos santos, podemos aprender com eles a prática da humildade, da paciência e de outras virtudes, de modo apropriado às nossas circunstâncias e estado de vida; e assim, podemos pedir que nos seja concedido participar nas bênçãos e na glória dos santos. Num belo jardim, colhe-se um ramalhete perfumado para desfrutar do seu aroma ao longo do dia; da mesma forma, devemos colher algumas flores da leitura, selecionando as reflexões piedosas e os sentimentos que mais nos comovem e revê-los frequentemente ao longo do dia; assim, não nos acontecerá o que aconteceu àquele que, tendo-se olhado num espelho, foi-se esquecendo da sua própria imagem” (cf. Tg 1, 23-24).
Façamos, antes, um giro histórico.
2. CONTEXTO
2.1. ORIGEM

Há uma notável redescoberta da Quaresma de São Miguel no século XXI em diversas partes do orbe. A devoção remonta à prática pessoal de São Francisco de Assis; jamais incorporada à Regula Bullata (Regra franciscana) de 1223 como obrigação disciplinar, permaneceu ao longo dos séculos presente como escolha particular, especialmente na família franciscana, tendo decrescido posteriormente. A difusão nos dias de hoje é, porém, impressionante.
As fontes franciscanas mais antigas convergem no testemunho.
Tomás de Celano (†c. 1260), na Vita Secunda (cap. CXLIX), registra que Francisco jejuava com a máxima devoção por quarenta dias entre a Assunção da Virgem e a festa de São Miguel, e que muitas vezes dizia dever-se honrar de modo solene o Arcanjo que tem o encargo de apresentar as almas a Deus.
São Boaventura (†1274), na Legenda Maior (cap. XIII), apresenta a subida ao Monte Alverne e afirma que Francisco iniciou ali um jejum de quarenta dias em honra de São Miguel, "como era seu costume".
A Compilatio Assisiensis narra que Francisco, chegando ao Alverne antes da Assunção, contou os dias entre a festa mariana e a de São Miguel e decidiu fazer ali uma quaresma "em honra de Deus, da bem-aventurada Virgem Maria e do bem-aventurado Miguel".
Os Fioretti, compilação do século XIV, e as Considerazioni sulle Stimmate, a eles anexas, narram detalhadamente as circunstâncias da quaresma de 1224, durante a qual Francisco recebeu os estigmas.
São Francisco cultivava vários períodos penitenciais de devoção particular, além da Quaresma litúrgica propriamente dita (chamada Grande Quaresma, Quaresma das Quaresmas; evidentemente de maior importância), encontrando-se registros das seguintes:
Quaresma de São Martinho [do Natal do Senhor]
(antecipadamente à Festa de São Martinho, 11 de novembro, jejuava já após a Festa de Todos os Santos, 1º de novembro, até o Natal);
Quaresma da Epifania
(após a Festa da Epifania, 6 de Janeiro, até 15 de fevereiro) (cf. Mt 4,2);
Quaresma da Assunção
(após a Festa de São Pedro e São Paulo, 29 de junho, até a Festa da Assunção, 15 de agosto);
Quaresma de São Miguel
(após a Festa da Assunção, 15 de agosto, até a Festa de São Miguel, 29 de setembro).
Obs.: A enumeração de suas quaresmas é sistematização posterior. De fato, vários outros períodos penitenciais são contados por diferentes fontes. Embora alguns indiquem uma quaresma em preparação da Festa de São Pedro e São Paulo, outros (como William Short, OFM; Ludovico Profilli, OFM; Filippo Sedda) indicam que a Quaresma em honra de São Pedro e São Paulo é a mesma da Quaresma da Assunção (cf. LM IX). Ainda, há quem enumere oito assim chamadas “quaresmas” não necessariamente de 40 dias, acrescentando, além das referidas, uma quaresma de Pentecostes (da Semana da Páscoa até o Domingo de Pentecostes, preparando-o para receber o Espírito Santo); uma quaresma para a Festa de Todos os Santos (após Pentecostes), e uma menor, da festa de Santo Estêvão até a Epifania, em honra dos Três Reis Magos (cf. Candide Chalippe, OFM, 1727).
Dessas particulares, a única imposta na Regra franciscana era a de preparação para o Natal, enraizada em costume muito antigo que nutriu as próprias origens do tempo do Advento.
Já a da Epifania constava como aconselhada, e recebeu o apelido de "quaresma abençoada", uma vez que "os que voluntariamente a jejuam sejam abençoados pelo Senhor, e os que não quiserem não sejam obrigados". Associada ao batismo de Jesus, considerava a cronologia do início do jejum no deserto.
A Quaresma de São Miguel permaneceu, assim, como tradição de piedade pessoal documentada nas hagiografias do Fundador, sem prescrição normativa na legislação da Ordem. Mesmo assim, é a mais citada.

2.2. TRADIÇÃO DE SÉCULOS
A prática não se extinguiu com o Fundador.
Entre seus ilustres praticantes mais antigos, registra-se (Vida e Milagres) a Rainha Santa Isabel de Portugal (†1336), terciária franciscana.
O Frei Bernardino da Colpetrazzo (†1594), cronista da primeira geração capuchinha, documenta numerosos frades que observavam a quaresma de São Miguel, tais como: Frei Bernardo de Fossombrone (†1539), Frei Bernardino de Monte del Olmo (†1565), Frei Honório de Montegranaro (†1569), Frei Humilde da Offida, Frei Ludovico de Stroncone, Frei Batista de Núrsia, Frei Ludovico de Foligno, Frei Boaventura de Montereale (†1557), Frei Vicente de Foiano.
Recolhe-se dos Anais Capuchinhos, do Frei Zacharia Boverio (†1638), o exemplo do Frei Ivone da Messina (†1572), que celebrava aquela quaresma com rigorosos jejuns e orações, e a quem o Arcanjo apareceu. Apareceu, também, ao Padre Francisco da Sinagra (†1560), para quem o próprio Príncipe dos anjos se identifica como aquele “em cuja honra jejuas a presente Quaresma”, registra o Padre Andrea da Paternò (†1800).
Nos processos do Beato Jeremias da Valáquia (†1625), Frei Tommaso da San Donato depõe que ele era devotíssimo de São Miguel e jejuava as suas quaresmas.
A “Vita” de São Bernardo de Corleone (†1667) publicada em 1768 refere que ele jejuava sempre a pão e água os quarenta dias em honra de São Miguel, “Protetor da nossa Religião [Ordem Franciscana]”.
E as crônicas capuchinhas da Sicília (A. Paternò) prolongam a série até pleno século XVIII, com praticantes como Frei Pietro da San Marco (†1740), Padre Francesco da Pettineo (†1743) e Frei Gregório da Tusa (†1748).
Nem só de religiosos se compõe essa memória. A terciária capuchinha Teresa Ganguzza da Mistretta (†1717) observava, além das quaresmas comuns à ordem, também aquelas feitas pelo Patriarca Seráfico.
E na região do Gargano, não muito distante do histórico santuário da aparição do Arcanjo, uma regra dos beatelli antoniani e das beatelle antoniane de San Marco in Lamis, leigos que viviam em suas próprias casas sob direção de frades franciscanos, estabelece em 2 de agosto de 1873: “Quem quiser pode fazer a quaresma de São Miguel, de 16 de agosto a 29 de setembro, ao uso de São Francisco. Mas, como é necessário discrição, não se recomenda que ninguém jejue sem o parecer de seu diretor espiritual."
A memória escrita acompanha a prática. Em 1739, o Padre Giovanni Marangoni publica em Roma as Grandezze dell'Arcangelo San Michele, obra de devoção destinada aos fiéis, onde afirma que entre todas as ordens religiosas cabe em primeiro lugar à de São Francisco cultivar o Príncipe dos anjos como seu Tutelar e Padroeiro, e explica a instituição da quaresma miguelina pelo próprio santo.
Essa memória, porém, foi-se recolhendo aos claustros e às pequenas comunidades penitenciais.
A devoção ao Arcanjo em geral, contudo, recebeu novos incentivos. A Igreja do século XIX erguia — em plena tempestade da Questão Romana e do combate ao laicismo — todo um arsenal devocional miguelino que chancelava e organizava a piedade dos fiéis: em 1851, Pio IX aprovava e enriquecia de indulgências a Coroa Angélica, atribuída a revelação do próprio Arcanjo à carmelita portuguesa Antónia d'Astonac; em 1878 nascia em Roma a Pia União de São Miguel Arcanjo, elevada por Leão XIII, em 1880, a Arquiconfraria Prima Primária, com o escapulário do Arcanjo; e em 1884-1886 o mesmo Leão XIII compunha e mandava recitar, ao fim de cada Missa, a célebre oração "São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate...". A devoção a São Miguel ganhava novo vigor na Igreja — e, no entanto, a quaresma que Francisco lhe dedicara permanecia discreta, à espera.
Reacendeu-se nos tempos atuais. É difícil rastrear as raízes históricas do ressurgimento, mas sem dúvida, providencialmente, um outro estigmatizado lançou novas sementes: Padre Pio.
2.3. PADRE PIO

O capuchinho de Pietrelcina rezava a oração leonina, difundia a Coroa Angélica e encaminhava seus penitentes em peregrinação ao Gargano — servia-se do arsenal que os papas do século anterior haviam forjado. Mas guardava também algo que lhe vinha de outra herança, a da sua própria Ordem: a quaresma do Arcanjo.
Giovanni Siena, escritor e filho espiritual de Padre Pio, testemunha que o santo capuchinho de Pietrelcina observava pessoalmente dois períodos quaresmais em honra de São Miguel — além do de setembro, um em memória da aparição no Monte Gargano, a 8 de maio. Não por acaso, foi durante um desses períodos, em 20 de setembro de 1918 — também primeiro dia da novena a São Miguel —, que Padre Pio recebeu os estigmas, ecoando de modo admirável o que ocorrera ao Poverello de Assis no Monte Alverne em 1224. Muitos momentos-chave da vida do Santo Frade de Pietrelcina se enquadram precisamente no período, observa o Padre Marcello Stanzione, notório angelólogo italiano.
De fato, Padre Pio não difundiu diretamente a quaresma extralitúrgica, e sim a devoção ao Arcanjo, frequentemente encorajando a recorrer a São Miguel, como para resolver conflitos familiares e rejeitar tentações diabólicas.
Bastante interessante é que a propagação literária moderna da quaresma miguelina passa indiretamente por ele. Andava escondida a obra de 1869 de Dom Nicola Ricci, Le grandezze di S. Michele Arcangelo meditate nella quaresima in onore del celeste Principe degli Angeli, com quarenta meditações para enriquecer a quaresma angélica.
Um exemplar desse livro guardava-o na sua biblioteca particular Lina Fiorellini, filha espiritual de Padre Pio, a quem o santo enviara uma imagem com a dedicatória de próprio punho:
“São Miguel te proteja e te defenda do inimigo infernal.”
Tocada por essas palavras, escreveu-lhe: “Padre, gostaria de difundir a devoção a São Miguel Arcanjo para obter a paz no mundo, para abater o orgulho das paixões humanas, nesta sociedade transtornada por guerras, discórdias, massacres, horrores”.
A resposta de Padre Pio foi positiva e encorajadora, e ele aprovou o projeto plena e alegremente. Fiorellini providenciou então uma reedição adaptada do volume. A obra saiu com novo título, Le grandezze di San Michele, e com as meditações reduzidas a trinta e uma, uma para cada dia do mês; foi publicada no trigésimo aniversário do dia em que São Pio recebeu os estigmas, e teve notável acolhida.
Houve ainda um segundo filho espiritual encarregado da mesma missão. O renomado Monsenhor Giuseppe Del Ton (†1997), colaborador de seis Papas e muito próximo do padre capuchinho, relata:
“Na noite de 11 de novembro de 1956, estava em Pompeia e tive um sonho que jamais esquecerei. Padre Pio apareceu-me e abençoou-me dizendo: ‘Deves fazer algo pelo bem da Igreja e pela alegria do povo. Faz algo para renovar a devoção a São Miguel. Trabalha junto com outros homens inteligentes e ascéticos’.”
E acrescenta o prelado:
“Aquele sonho foi profético. Nos anos que se seguiram, várias circunstâncias levaram-me a organizar, com algumas outras pessoas, uma associação cultural cujo fim era infundir nova vida à devoção a São Miguel Arcanjo.”
Providencialmente, por meios diversos, no final da década de 2010, a quaresma deste príncipe da milícia celeste começava a ganhar extraordinariamente o coração de incontáveis fiéis em diferentes partes do mundo; e hoje já lhe cabe, com propriedade, o nome de devoção popular.
Para bem extrair-lhe a essência, aquilatada pela santidade do grande São Francisco de Assis, vamos às fontes de sua história.
3. COLETÂNEA DE NARRAÇÕES
Legenda Maior
Por São Boaventura
(séc. XIII)
Capítulo IX – Sobre o fervor da caridade e o desejo do martírio
[...]
Unira-se por um vínculo de amor inseparável aos espíritos angélicos, que ardem em um fogo mirífico para elevar-se até Deus e para inflamar as almas dos eleitos e, por devoção a eles, jejuando por quarenta dias desde a Assunção da Virgem gloriosa, insistia continuamente na oração.
Mas ainda era mais devoto, por um especial amor, do Bem-aventurado Miguel arcanjo, porque tinha o encargo de apresentar as almas. Isso pelo fervoroso zelo que tinha pela salvação das almas.
I Fioretti
Considerazioni sulle Stimmate
(séc. XIV)
Primeira consideração sobre os sagrados santos estigmas
[...]

Monsior Orlando, tocado por Deus no coração pela maravilhosa pregação de São Francisco, resolveu no coração que ia tratar e discorrer com ele, depois da pregação, sobre as coisas de sua alma.
Por isso, terminada a pregação, levou São Francisco à parte e lhe disse: “Ó pai, eu gostaria de tratar contigo da salvação de minha alma”. São Francisco respondeu: “Muito me agrada; mas, nesta manhã, ide honrar os vossos amigos que vos convidaram para a festa e comei com eles, e, depois da refeição, falaremos os dois quanto vos agradar”.
Então monsior Orlando foi jantar e, depois de jantar voltou a São Francisco e tratou e dispôs com ele plenamente os fatos de sua alma. No fim, esse monsior Orlando disse a São Francisco: “Eu tenho na Toscana um monte muito devoto, que se chama Monte Alverne, que é muito solitário e selvagem, muito adequado para quem quiser fazer penitência ou para quem deseja vida solitária, num lugar afastado das pessoas. Se ele te agradar, eu vou dá-lo de boa vontade a ti e a teus companheiros, pela salvação de minha alma”.
Ouvindo São Francisco essa oferta tão liberal daquilo que ele tanto desejava, ficou muito alegre, louvando e agradecendo primeiro a Deus e depois ao predito monsior Orlando, e lhe disse assim: “Monsior, quando tiverdes voltado para vossa casa, eu vos mandarei companheiros meus e vós lhes mostrareis o monte. Se lhes parecer adequado para a oração e para fazer penitência, eu aceito desde agora a vossa caridosa oferta”.
[...]
Assim acompanhados, os frades subiram ao monte e o revisaram diligentemente. No fim, chegaram a uma parte do monte muito devota e muito adequada para contemplar, na qual havia um pouco de terreno plano. Escolheram esse lugar para morarem, eles e São Francisco.
Juntos, com a ajuda daqueles homens armados, que estavam na sua companhia, fizeram uma pequena cela de ramos de árvores. E assim aceitaram e tomaram, no nome de Deus, o monte Alverne e o lugar dos frades nesse monte. Partiram e voltaram a São Francisco.
Quando chegaram a ele, contaram como e de que modo tinham tomado o lugar no monte Alverne, muito adequado para a oração e a contemplação. Quando ouviu essa notícia, São Francisco se alegrou muito e, louvando e agradecendo a Deus, disse a esses frades com o rosto alegre:
“Meus filhos, estamos nos aproximando de nossa quaresma de São Miguel Arcanjo: creio firmemente que é vontade de Deus que façamos esta quaresma no monte Alverne, que por disposição divina foi-nos aprontado para que, para honra e glória de Deus e de sua gloriosa Virgem Maria e dos santos Anjos nós mereçamos de Deus, pela penitência, a consolação de consagrar aquele monte abençoado”.
Compilatio Assisiensis
(séc. XIII)
[...]
Certa ocasião, o bem-aventurado Francisco foi ao eremitério de Monte Alverne; e como o lugar era muito afastado, ele gostou tanto que quis fazer aí a quaresma em honra de São Miguel. Pois fora para lá antes da festa da Assunção da gloriosa Virgem Maria, e contou os dias desde a festa de santa Maria até a festa de São Miguel, eram quarenta dias. E disse: “Em honra de Deus e da bem-aventurada Virgem Maria, sua mãe, e do bem-aventurado Miguel, príncipe dos anjos e das almas, quero fazer aqui uma quaresma”.

E aconteceu que, quando entrou na cela para lá ficar continuamente, rogou ao Senhor na primeira noite que lhe mostrasse de alguma maneira como poderia saber se era sua vontade que ficasse ali. Pois o bem-aventurado Francisco sempre foi solícito, quando estava em algum lugar continuamente em oração, ou quando saía pelo mundo em pregação, em conhecer a vontade do Senhor, segundo a qual mais pudesse agradá-lo. Porque algumas vezes temia que, com a desculpa de ficar mais afastado para orar, o corpo quisesse descansar, recusando o trabalho de ir pregando pelo mundo, pois para isso Cristo desceu do céu ao mundo. Até mais, os que lhe pareciam amados pelo Senhor, fazia-os rogar ao Senhor que lhes mostrasse sua vontade, se devia sair pelo mundo pregando ou de vez em quando tinha que permanecer em algum lugar remoto para orar.
Bem cedo, na aurora, quando estava em oração, vieram pássaros de diversos tipos para cima da cela onde ficava, não todos juntos, mas primeiro vinha um e cantava, demonstrando o seu doce verso, e depois ia embora. Depois vinha outro, cantava e ia embora; e assim fizeram todos. O bem-aventurado Francisco ficou muito admirado com isso e teve a maior consolação, mas começou a meditar sobre o que seria isso. E foi dito pelo Senhor em espírito: “Isso é sinal de que o Senhor vai te fazer o bem nessa cela e vai dar-lhe muitas consolações”.
E essa foi a verdade.
Legenda Maior
Por São Boaventura
(séc. XIII)
Capítulo VIII – Sobre o sentimento de piedade e como os seres que não têm razão pareciam ter afeto por ele
[...]
Quando chegou ao eremitério do Alverne para celebrar a quaresma em honra de São Miguel Arcanjo, aves de diversos tipos voavam ao redor de sua cela, com um canto sonoro e gestos de alegria, como se estivessem contentes com a sua chegada, pareciam convidar e animar o piedoso pai a ficar.
Vendo isso, ele disse ao companheiro:
“Estou vendo, irmão, que é da vontade divina que moremos aqui por algum tempo, tanto parece que nossos irmãos passarinhos se consolam com nossa presença”.
Como, por isso, fixou morada ali, um falcão, que lá tinha seu ninho, uniu-se a ele por uma aliança de amizade.
Pois sempre, na hora da noite em que o homem santo costumava levantar-se, avisava-o com seu canto e barulho.
O servo de Deus gostava muito disso, porque tanta solicitiude, que tinha por ele, sacudia-o de todo torpor de preguiça.
Mas quando o servo de Deus ficava mais doente do que de costume, o falcão poupava-o, e não marcava vigílias tão cedo.
Assim, como se fosse instruído por Deus, perto da aurora tocava de leve o sino de sua voz.
É certo que havia um presságio tanto na variegada exultação dos passarinhos quanto no canto do falcão, pois o louvador e cultor de Deus, levado pelas asas da contemplação, deveria ser sublimado nesse lugar pela aparição do Serafim.
I Fioretti
Considerazioni sulle Stimmate
(séc. XIV)
Segunda consideração sobre os sagrados santos estigmas
[...]
Aproximando-se, pois, a festa da Assunção de nossa Senhora, procurou a oportunidade de um lugar mais solitário e secreto em que pudesse fazer a mais à parte a quaresma de São Miguel Arcanjo, que começava na dita festa da Assunção. Por isso chamou Frei Leão e lhe disse assim:
“Vai e fica na porta do lugar dos frades; quando eu te chamar, voltarás a mim”.
Frei Leão foi e ficou à porta. São Francisco demorou um pouco e o chamou com força. Ouvindo chamar, Frei Leão voltou a ele e São Francisco lhe disse:
“Filho, vamos procurar outro lugar mais secreto onde não me possas ouvir assim quando eu te chamar”.
Procurando, viram no lado do monte, na parte do sul, um lugar secreto e muito bem adequado, como ele queria. Mas não se podia chegar lá, porque na frente havia uma abertura na rocha muito terrível e amedrontadora. Com muita fadiga, puseram em cima dela um tronco como ponte e passaram para o outro lado. Então São Francisco mandou chamar os outros frades e lhes disse como queria fazer a quaresma de São Miguel naquele lugar solitário.
Pediu então que lhe fizessem uma pequena cela de modo que, por mais que ele gritasse, não poderia ser ouvido por eles. Feita a celinha de São Francisco, ele lhes disse:
“Voltai para o vosso lugar e deixai-me aqui sozinho pois, com a ajuda de Deus, pretendo fazer aqui esta quaresma sem estropício da mente. Por isso, nenhum de vós venha a mim, nem permitais que venha algum secular”.
Vita Secunda
Por Tomás de Celano
(séc. XIII)
Capítulo CXXVIII - Sobre as abelhas
Construíram certa vez em uma montanha uma cabana em que o servo de Deus fez quarenta dias de rígida penitência. Quando terminou o tempo e ele saiu, a cela ficou abandonada e desocupada. Lá ficou largado o pequeno vaso de barro em que o santo tomava água.
Quando algumas pessoas foram àquele lugar para reverenciar o santo, encontraram o vaso cheio de abelhas. Nele tinham construído seus favos com arte admirável, simbolizando a doçura da contemplação que o santo de Deus tinha bebido nesse lugar.
Actus Beati Francisci et sociorum eius
Por Frei Hugolino de Montegiorgio
(séc. XIV)
Capítulo IX - A descoberta do monte Alverne
[...]
Depois de ter escolhido aí um lugar solitário, onde pudesse orar afastado dos outros, fez para si uma celazinha bem pobre em um dos lados do monte, e ordenou aos frades que nenhum se aproximasse dele nem permitissem que fosse alguma outra pessoa a não ser Frei Leão, porque tencionava fazer ali a quaresma do arcanjo Miguel.
Mas também impôs a Frei Leão que não fosse até ele a não ser uma vez por dia com pão e água e uma vez de noite, na hora das Matinas. Nessa hora devia aproximar-se sem falar nada, mas só propondo ou proferindo o seguinte: Senhor, abre os meus lábios. E se o santo respondesse de dentro: E minha boca anunciará o vosso louvor (Sl 50,17), diriam juntos as Matinas. Mas, se não respondesse lá de dentro, Frei Leão devia afastar-se imediatamente. E São Francisco mandou fazer isso porque estava às vezes em tamanho êxtase da mente que não podia falar por um dia e por uma noite, tão absorto estava em Deus. Frei Leão observava com a maior atenção esse preceito.
Entretanto, embora Frei Leão guardasse fielmente o santo silêncio, espiava quanto podia o que o santo estava fazendo. E algumas vezes descobria o santo fora da cela, elevado tão alto no ar que podia tocar os pés dele. Então abraçava-os e os beijava chorando e dizendo:
“Deus, sede propício a mim que sou pecador (Lc 18,3) e, pelos méritos deste homem tão santo, fazei que eu possa encontrar tua santíssima misericórdia”.
I Fioretti
Considerazioni sulle Stimmate
(séc. XIV)
Segunda consideração sobre os sagrados santos estigmas
[...]
Chegando, portanto, a festa da Assunção, São Francisco começou a santa quaresma e, macerando o corpo com grandíssima abstinência e aspereza, mas confortando o espírito com fervorosas orações, vigílias e disciplinas, crescendo sempre nessas orações de virtude em virtude, dispunha sua alma a receber os mistérios divinos e os divinos esplendores, e o corpo a suportar as batalhas cruéis dos demônios, com os quais muitas vezes combatia sensivelmente. Entre outras, houve uma vez, naquela quaresma em que saindo um dia São Francisco da cela ficando bem perto dali em oração na cavidade de um rochedo, do qual, até lá embaixo no chão há uma grandíssima altura e um horrível e amedrontador precipício, de repente veio o demônio, com tempestade e grandíssimo rumor, em uma forma horrível, e bateu nele para joga-lo dali para baixo.
Como São Francisco não tinha para onde fugir e não podia suportar o aspecto crudelíssimo do demônio, voltou-se de repente com as mãos, o rosto e todo o corpo para a rocha e, recomendando-se a Deus, tateando com as mãos sem poder agarrar-se a nada. Mas, como aprouve a Deus, que nunca permite que seus servos sejam tentados mais do que podem aguentar, de repente, por milagre, a rocha em que ele se encostou foi cavada de acordo com a forma do seu corpo e o recebeu em si, como se ele tivesse posto as mãos e o rosto em cera líquida, assim na referida rocha ficou marcada a forma das mãos e do rosto de São Francisco. Assim, ajudado por Deus, escapou do demônio.
Legenda Maior
Por São Boaventura
(séc. XIII)
Capítulo XIII – Sobre os sagrados estigmas

Francisco, homem angélico, tinha por costume nunca perder tempo na busca do bem; antes, como os espíritos supernos na escada de Jacó, ou subia para Deus ou descia para o próximo. Pois aprendera a dividir o tempo que lhe fora concedido para o merecimento de maneira tão prudente que dedicava uma parte para lucros laboriosos do próximo; outra, para os tranquilos excessos da contemplação.
Por isso, depois de ter se empenhado, segundo as exigências dos lugares e dos tempos, na busca da salvação, abandonando as inquietações das turbas, procurava os segredos da solidão e um lugar de sossego, onde, entregando-se mais livremente ao Senhor, limpasse o pó que porventura pudesse ter recebido por viver no meio das pessoas.
Por isso, dois anos antes de entregar seu espírito ao céu, foi conduzido pela divina providência, depois de múltiplos trabalhos, para um lugar elevado e solitário chamado Monte Alverne.
Por isso, como, de acordo com o seu costume, começasse a jejuar para fazer a quaresma de São Miguel Arcanjo, ficou transbordante pela doçura da contemplação superna, mais do que habitualmente, e, aceso pela chama mais ardente dos desejos celestes, começou a sentir num acúmulo maior os dons dos derramamentos celestes que nele se faziam.
Era carregado para o alto, não como curioso esquadrinhador da majestade para ser oprimido pela glória, mas como um servo fiel e prudente, investigando o que era agradável a Deus, a quem desejava conformar-se de todas as maneiras com o maior ardor.
Pois foi derramado em sua mente por um oráculo divino que, ao abrir o livro evangélico, ser-lhe-ia revelado por Cristo o que nele e a partir dele era mais aceito a Deus.
Tendo, pois, orado muito, tomou do altar o sagrado livro dos Evangelhos, e o fez abrir em nome da Santíssima Trindade pelo companheiro, homem devotado a Deus e santo.
E como nas três vezes em que abriu sempre caiu na Paixão do Senhor, o homem cheio de Deus entendeu que, como tinha imitado Cristo nos atos de sua vida, assim deveria conformar-se a Ele nas aflições e dores da paixão, antes de passar deste mundo.
E, ainda que por causa da demasiada austeridade de sua vida passada já estivesse incapaz de carregar corporalmente a cruz do Senhor continuamente, não se assustou, absolutamente, mas se animou a submeter-se ao martírio.
Pois se levantara de tal modo nele um insuperável incêndio de amor pelo bom Jesus em lâmpadas de fogo e chamas, que as torrentes de água não poderiam apagar sua tão válida caridade.
Por isso, como era carregado para o alto, para Deus, pelos ardores seráficos dos desejos, e por compassiva doçura estava sendo transformado nele, pela demasiada caridade quis ser crucificado.
Uma manhã, perto da festa da exaltação da santa Cruz, quando estava orando em um lado do monte, viu que estava descendo do céu um Serafim com seis asas tão de fogo quanto esplêndidas. Chegou num voo rapidíssimo ao ponto do ar perto do homem de Deus, aparecendo entre as asas a efígie de um homem crucificado, com as mãos e os pés estendidos em modo de cruz e na cruz pregados. Duas asas elevavam-se acima de sua cabeça; duas estendiam-se para voar, e duas velavam todo o seu corpo.
Vendo isso, ficou enormemente espantado, e seu coração incorreu num misto de tristeza e alegria. Alegrava-se pelo aspecto gracioso pelo qual via Cristo na figura de um Serafim olhando para ele, mas o fato de estar pregado na cruz atravessava sua alma com a espada da dor compassiva.
Estava muito admirado pelo aspecto dessa visão tão inescrutável, sabendo que a enfermidade da paixão não combina absolutamente com a imortalidade do espírito seráfico. Finalmente acabou entendendo, a partir disso, pela revelação de Deus, que de tal forma aquela visão fora apresentada a ele pela divina providência, que o amigo de Cristo pudesse conhecer com antecedência que não seria todo transformado na figura do Cristo crucificado pelo martírio da carne mas pelo incêndio da mente.
Actus Beati Francisci et sociorum eius
(séc. XIV)
Capítulo IX - A descoberta do monte Alverne
[...]
E apareceu [Cristo na forma de um Serafim alado e como que crucificado] de noite, com tanto esplendor, que iluminou vales e montes distantes ao redor melhor do que se a claridade do sol estivesse presente. Disso foram testemunhas todos os pastores que faziam a vigília com seus rebanhos (cfr. Lc 2,8), naquela região.
Legenda Maior
Por São Boaventura
(séc. XIII)
Capítulo XIII – Sobre os sagrados estigmas
[...]

Quando a visão desapareceu, deixou no coração dele um admirável ardor, mas na carne imprimiu a figura não menos admirável dos sinais.
Pois começaram a aparecer imediatamente em suas mãos e pés os sinais dos cravos, como um pouco antes tinha visto naquela imagem do Crucificado.
As mãos e os pés pareciam pregados com cravos bem no meio, aparecendo as cabeças dos cravos na parte interior da mão e em cima dos pés, e suas pontas do outro lado.
As cabeças dos cravos, nas mãos e nos pés eram redondas e negras, mas as pontas eram compridas, entortadas e como que reviradas, saindo da própria carne mas destacando-se fora da carne.
O lado direito também tinha uma cicatriz rubra, como se tivesse sido transpassado por uma lança e, derramando sangue muitas vezes, molhava a túnica e as calças.
Actus Beati Francisci et sociorum eius
(séc. XIV)
Capítulo IX - A descoberta do monte Alverne
[...]
Mas ainda não se sabe tudo sobre o porquê apareceram os estigmas em São Francisco; mas, como ele mesmo revelou a seus companheiros, isso vai passar para o futuro como um grande mistério. Frei Tiago de Massa ouviu essa história da boca de Frei Leão; e Frei Hugolino do Monte Santa Maria, da boca do referido Frei Tiago. E eu, que estou escrevendo, ouvi da boca de Frei Hugolino, homem bom e digno de confiança.
Compilatio Assisiensis
(séc. XIII)
[...]
E aconteceu que, quando seu companheiro levou-lhe a comida, ele contou tudo que lhe tinha acontecido.
E embora tivesse muitas consolações naquela cela, os demônios também lhe causaram muitas tribulações, como contou ao mesmo companheiro.
Por isso, uma vez, disse:
“Se os frades soubessem quantas tribulações me fazem os demônios, não haveria nenhum deles que não tivesse muita piedade e compaixão de mim”.
Legenda Maior
Por São Boaventura
(séc. XIII)
Capítulo XIII – Sobre os sagrados estigmas
[...]
Percebendo o servo de Cristo que não poderiam ficar escondidos dos seus companheiros familiares os estigmas tão fortemente impressos na carne, mas temendo publicar esse sacramento do Senhor, ficou numa grande agonia de dúvida, se devia ou não falar ou calar-se sobre o que vira.
Por isso, chamou alguns dos frades e, falando em palavras gerais, propôs-lhes a dúvida e pediu conselho. Um dos irmãos, por graça e de nome Iluminado, compreendendo que tinha visto alguma coisa maravilhosa, pois ainda parecia tão espantado, disse ao santo homem:
“Irmão, deves saber que às vezes os sacramentos de Deus te são mostrados não só por tua causa mas também por causa dos outros. Então, acho que o certo que, se esconderes o que recebeste para muitos, deverás temer ser acusado de repreensível por ter escondido o talento”.
O homem santo, movido por essas palavras, embora dissesse em outras ocasiões: “Meu segredo é meu”, então, com muito temor, fez a narrativa da referida visão. Acrescentou que aquele que lhe aparecera tinha dito algumas coisas que nunca deveria contar para ninguém enquanto vivesse.
Devemos crer que certamente eram tão arcanas as palavras daquele sagrado Serafim que apareceu maravilhosamente na cruz, que talvez não fosse lícito dizê-las aos homens.
Mas, depois que o verdadeiro amor de Cristo transformou aquele que o amava em sua imagem, quando acabaram os quarenta dias que tinha decidido ficar na solidão, e tendo chegado também a festa de São Miguel Arcanjo, Francisco, o homem angélico, desceu do monte.
Trazia consigo a imagem do Crucificado, não gravada à mão em tábuas de pedra ou de madeira, com artifícios, mas escrita nos membros da carne pelo dedo de Deus vivo.
E como é bom esconder o sacramento do Rei, (cfr. Tb 12,7) o homem que era cônscio do segredo real ocultava como podia aqueles sinais santos.
Entretanto, como cabe a Deus revelar para a sua glória as grandes coisas que faz, o próprio Senhor, que tinha marcado em segredo aqueles sinais, mostrou abertamente alguns milagres através deles, para que a força oculta e admirável daqueles estigmas se tornasse conhecida pela claridade dos sinais.
I Fioretti
Considerazioni sulle Stimmate
(séc. XIV)
Quarta consideração sobre os sagrados santos estigmas

Quanto à quarta consideração, devemos saber que, depois que o verdadeiro amor de Cristo transformou perfeitamente São Francisco em Deus e na verdadeira imagem de Cristo crucificado, e tendo cumprido a quaresma de quarenta dias em honra de São Miguel Arcanjo no santo monte do Alverne, depois da solenidade de São Miguel desceu do monte o angélico homem São Francisco, com Frei Leão e um devoto aldeão, sobre cujo asno ele ia montado porque, por causa dos cravos dos pés, não podia andar bem a pé.
Então, tendo São Francisco descido do monte santo, como a fama de sua santidade tinha sido divulgada pela região e pelos pastores tinha sido espalhado como tinham visto o monte Alverne todo em chamas, o que era sinal de que algum grande milagre Deus tinha feito a São Francisco.
Quando o povo da região ouviu dizer que ele ia passando, todos vinham vê-lo, homens e mulheres, pequenos e grandes, os quais, todos com grande devoção e desejo, esforçavam-se por toca-lo e beijar-lhe as mãos. Como ele não podia negar-se à devoção do povo, embora tivesse as mãos enfaixadas, para ocultar melhor os sagrados santos estigmas enfaixava-os melhor e os cobria com as mangas, dando-lhes a beijar só os dedos descobertos.
Continuidade: Exemplo seguido pelos confrades
Actus Beati Francisci et sociorum eius
(séc. XIV)
Capítulo XLVIII - Maravilhas sobre alguns irmãos da província das Marcas; e como a Bem-aventurada Virgem apareceu a Frei Conrado no bosque de Forano
[...]
[Frei Pedro de Monticello] quando jejuou com muita devoção a quaresma de São Miguel Arcanjo e no último dia de jejum se dirigiu à igreja para rezar, foi ouvido por um frade menino que estava cuidadosamente escondido sob o altar: estava falando com o santíssimo Miguel Arcanjo e o arcanjo com ele. E as palavras que diziam eram estas. Dizia o Arcanjo:
“Frei Pedro, tu trabalhaste fielmente por mim e te afligiste de múltiplas formas; eis que vim para te consolar, para que peças qualquer graça que quiseres; e eu a impetrarei do Senhor para ti”.
Frei Pedro respondia:
“Santíssimo príncipe da milícia celeste, fidelíssimo zelador da honra de Deus e protetor piíssimo das almas, peço-te esta graça: que impetres para mim a remissão de todos os pecados”.
Respondeu o santíssimo Miguel:
“Pede outra graça, porque essa eu vou adquirir para ti com facilidade”.
Mas Frei Pedro não pedia outra coisa. O Arcanjo concluiu:
“E eu, por causa da fé e devoção que tens em mim, vou conseguir para ti a graça que pedes e muitas outras”.
Quando acabou o colóquio, que durou por muito tempo de noite, deixou-o intimamente consolado.
Tertullianus Prædicans
Por Michel Vivien, SJ (1679)
Primeiro Tomo
Perfeição Angélica - Sermão III
[...]
O Seráfico Francisco, para demonstrar a sua piedade para com São Miguel, jejuando quarenta dias a partir da festa da Assunção da Virgem, insistia constantemente na oração; costume que ele também transmitiu à posteridade, por quem aquele jejum foi solenemente chamado de Quaresma de São Miguel.
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